A crise do transporte coletivo em Anápolis atingiu um novo patamar nesta semana, com a combinação de reversão judicial, pressão política e indícios de descumprimento contratual por parte da Urban. A situação levou o vereador Wederson Lopes (União) a propor a abertura de uma Comissão Especial de Investigação (CEI) contra a empresa, que opera o sistema de transporte há mais de uma década.
A gota d'água foi a suspensão de uma liminar que respaldava a planilha de custos da Urban, reconhecendo um valor controverso de R$ 8,19 por passageiro. A decisão foi revista pela juíza substituta Iara Márcia Franzoni de Lima Costa, da 10ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Goiás, que derrubou o entendimento anterior do juiz Gabriel Lisboa, da Comarca de Anápolis.
Em meio ao revés jurídico, o discurso dos parlamentares se intensificou. Wederson Lopes, que também preside a Comissão de Transporte, questionou a lógica econômica por trás da permanência da Urban na concessão:
"A empresa, segundo dizem as entrevistas, tem um prejuízo de R$ 3 milhões por mês. Que empresa se mantém com um prejuízo desses?", indagou. "Nós já temos argumentos e fatos mais do que suficientes de que a empresa não cumpre o contrato. E isso já pode ser considerado uma quebra contratual, com possibilidade de cancelamento da concessão", afirmou.
Segundo Wederson, o contrato atual da Urban envolve dois lotes:
Lote 1: R$ 15.601.000,00
Lote 2: R$ 12.107.000,00
Valor total: R$ 27.708.000,00, com vigência de 15 anos e vencimento previsto para 2030.
No entanto, o parlamentar levantou suspeitas sobre os termos iniciais da licitação. “Na época da assinatura do contrato, o valor da tarifa era de R$ 2,50. Hoje, se não me engano, está em R$ 5,50. Isso levanta uma interrogação: será que a empresa entrou na licitação com valor baixo apenas para assumir a concessão, já planejando aumentos futuros para justificar o equilíbrio econômico?”, questionou.
A possível quebra de contrato ganha ainda mais força com a movimentação do Executivo. O prefeito Márcio Corrêa (PL) apresentou à Câmara o Projeto de Lei Ordinária nº 244/2025, que prevê autorização legislativa para concessão de subsídios ao transporte coletivo. Segundo Wederson, “é o momento de discutir isso com seriedade. A população cresce, a demanda por transporte aumenta e o serviço não acompanha essa evolução”.
"Urbano, você tem condição de melhorar o serviço? Quem sabe da maneira de transporte é o cidadão que está na ponta", destacou o vereador, ecoando a insatisfação popular.
Mesmo antes da formalização da CEI, o vereador já convocou audiência pública para o dia 5, na qual espera que a empresa apresente documentos, planilhas e propostas de soluções. A Câmara, segundo ele, não pode mais ignorar a deterioração do serviço e a possível inviabilidade econômica da operação.
A reportagem solicitou posicionamento à empresa Urban e aguarda retorno. O espaço segue aberto para manifestação.