Com um déficit mensal que pode chegar a R$ 3 milhões, o transporte coletivo de Anápolis enfrenta uma crise que ameaça a continuidade do serviço. Na audiência pública realizada na Câmara Municipal nesta sexta-feira (5), vereadores, representantes da empresa operadora e membros do Executivo discutiram alternativas para salvar o sistema. A principal proposta é a criação de um subsídio com participação da Prefeitura e do Governo de Goiás, que permita não apenas manter o serviço, mas também melhorá-lo e torná-lo mais acessível.
Segundo o advogado da empresa Urban, Carlos Leão, a situação atual é insustentável:
“O sistema está na UTI. Está funcionando hoje porque a empresa vem bancando com recursos próprios, mas isso não se sustenta. Sem aporte público, não há como manter a operação, renovar a frota, investir em tecnologia ou oferecer um serviço melhor.”
Ele explicou que, além do valor da passagem, o usuário acaba arcando com gratuidades, impostos, taxas de gestão e operação aos domingos sem compensação.
“Tudo está no colo do passageiro. O objetivo agora é dividir essa conta com o poder público, como já acontece em outras cidades.”
Carlos Leão apresentou projeções: com um subsídio semelhante ao que Goiânia recebe, Anápolis poderia ter uma tarifa abaixo de R$ 3. Já para chegar à tarifa zero, seria necessário um investimento de cerca de R$ 7 milhões por mês — valor que hoje está fora do alcance, mas que pode ser parcialmente viabilizado com apoio estadual.
O vereador Wederson Lopes, autor do requerimento da audiência, deixou claro que o primeiro passo é a apresentação de um plano técnico de requalificação, com prazos, metas e detalhamento de melhorias. Ele deu prazo até o dia 30 de setembro para que a Agência Reguladora Municipal (ARM) e a operadora apresentem esse projeto à Câmara.
“Não aceitamos mais um diagnóstico sobre o prejuízo da empresa. Queremos saber: quantos ônibus novos serão colocados? Qual o cronograma de substituição da frota? Sem isso, não tem como discutir subsídio.”
Wederson também apontou que a responsabilidade é compartilhada:
“A ARM tem que cumprir seu papel de fiscalizadora. Ela precisa validar os números apresentados, definir metas e acompanhar a execução. A empresa só cumpre se for exigida.”
A audiência também repercutiu a fala do vice-governador Daniel Vilela, que, em visita recente a Anápolis, afirmou que o Estado está aberto a apoiar o transporte coletivo da cidade, desde que seja apresentado um projeto consistente.
“O que ouvimos foi claro: tragam os ingredientes certos que o Estado entra com o apoio. Agora cabe à Prefeitura, à ARM e à empresa organizarem esse plano”, disse Carlos Leão.
Leão ainda sugeriu que plataformas de transporte por aplicativo, como Uber e 99, possam ser chamadas a contribuir com o financiamento do sistema.
“Esses serviços não oferecem gratuidade e não têm encargos trabalhistas. Uma taxa de R$ 1 por corrida já poderia gerar milhões para ajudar o transporte coletivo — que cumpre papel social e legal”, explicou.
Wederson reforçou que a tarifa não será aumentada. A meta é justamente o oposto: diminuir o custo para o usuário, especialmente os mais vulneráveis.
“Estamos alinhados com o prefeito Márcio Corrêa e com o Governo do Estado para buscar um transporte mais barato e melhor. A população não pode continuar pagando caro por um serviço que não entrega o mínimo.”
O documento com os encaminhamentos da audiência será formalizado e enviado aos responsáveis nos próximos dias. A Câmara vai acompanhar de perto o cumprimento do prazo e a entrega do plano técnico.
“Agora é agir. Ou o sistema muda, ou para. A gente não quer mais ver o transporte coletivo de Anápolis sobrevivendo. A gente quer ele funcionando bem, com respeito a quem depende dele todo dia”, concluiu Wederson Lopes.
CEI descartada após esclarecimentos
Antes da audiência, tramitava na Câmara uma proposta de abertura de Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar o contrato da empresa. No entanto, após os esclarecimentos técnicos e o compromisso assumido publicamente, Wederson Lopes anunciou que a CEI está fora dos planos.