Política OPINIÃO
Nacionalismo e o Evangelho de Jesus Cristo
Para onde as igrejas devem apontar a direção: ao evangelho ou a um lado político ideológico? Presbiteriano explica com clareza. Confira.
23/09/2026 09h18 Atualizada há 3 horas
Por: Redação
Nacionalismo e o evangelho de Jesus Cristo. Crédito: Imagem meramente Ilustrativa, gerada por IA.

Estamos assistindo aos absurdos que o mundo, em nome de um nacionalismo exacerbado, comete contra estrangeiros. Seja nos Estados Unidos, com o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) promovendo uma verdadeira "caça às bruxas" em território americano, ou na Alemanha, onde a extrema-direita alcançou votações recordes em eleições estaduais ao defender o fechamento de fronteiras, o abrandamento do ensino sobre o nazismo nas escolas e uma política externa contrária às sanções à Rússia.

Tudo isso, porém, não é um fato isolado nem uma novidade histórica. Diante do medo e da insegurança, a humanidade frequentemente recorre à aniquilação do semelhante ou ao isolamento dos menos favorecidos. Essa postura deixou marcas devastadoras ao longo do tempo. Exemplos não faltam na história:

• Alemanha nazista: a ideia da "raça ariana" culminou no genocídio de 6 milhões de judeus;

Império Turco-Otomano: levou ao extermínio de 1,5 milhão de armênios;

Japão Imperial: o Massacre de Nanquim resultou em centenas de milhares de civis chineses mortos e mulheres submetidas à escravidão sexual;

Ruanda: a ideologia do *Poder Hutu* vitimou cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados;

Conflito Israel-Palestina: o confronto atual que já vitimou mais de 80 mil pessoas desde 2023.

Esse sentimento de exclusão também se manifesta dentro das próprias nações, como no caso da xenofobia contra nordestinos no Brasil.

O problema torna-se ainda mais grave quando ultrapassa a esfera política e penetra as religiões. Nesse ponto, deixa-se de manipular apenas o medo para instrumentalizar a fé — e, nas tradições monoteístas, isso passa a ser feito "em nome de Deus". Sem entrar no mérito do Islamismo, atenho-me aqui ao Cristianismo, fé da qual faço parte.

Fomos catequizados sobre o Deus de Israel e, não raras vezes, nos ensoberbecemos ao nos considerarmos um "povo escolhido". Nossos hinos frequentemente ensinam a "tomar posse da Terra Prometida", multiplicam-se campanhas para "derrubar os muros de Jericó", canta-se o hino nacional nos templos e hasteiam-se bandeiras de Israel (e até dos Estados Unidos) nos altares — como se essas nações tivessem preeminência diante de Deus. Tudo isso colabora para criar a falsa sensação de que o nacionalismo ufanista está enraizado no coração do Criador.

Para onde as escrituras apontam?

As Escrituras, no entanto, apontam para a direção oposta.  O propósito de Deus sempre foi manifestar a Cristo e romper com o orgulho humano visto em Babel, onde homens tentaram construir a própria torre para alcançar os céus (evento no qual o Senhor confunde as línguas, assunto para outra reflexão).

O primeiro homem chamado por Deus para uma aliança universal foi Abraão, cujo nome significa "pai de uma grande multidão" ou "pai de nações". O próprio Deus declarou a ele:

"Em ti serão benditas TODAS as famílias da terra."Gênesis 12:3

No livro de Levítico, a instrução sobre os estrangeiros é explícita:

"Quando um estrangeiro viver com vocês na terra de vocês, não o maltratem. O estrangeiro que reside com vocês será para vocês como um natural da terra; vocês o amarão como a si mesmos, pois foram estrangeiros na terra do Egito."Levítico 19:33-34

Deus também desconstruiu qualquer sentimento de superioridade de Israel em relação aos outros povos:

"Vocês, israelitas, não são para mim melhores do que os etíopes", declara o Senhor. "Eu tirei Israel do Egito, os filisteus de Caftor e os arameus de Quir."Amós 9:7

E estendeu Sua bênção até mesmo aos povos considerados inimigos historicamente:

"Naquele dia, Israel será o terceiro, com o Egito e a Assíria, uma bênção no meio da terra. O Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: 'Benditos sejam o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, a minha herança.” Isaías 19:24-25

Todas essas promessas encontram seu cumprimento em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo reforça essa unidade no Novo Testamento:

"Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus." Gálatas 3:28

Além disso, na parábola do Bom Samaritano, Jesus enaltece justamente um estrangeiro em detrimento dos religiosos locais. Mais tarde, Pedro reconhece essa verdade ao afirmar:

"Então, Pedro começou a falar: — Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo." Atos 10:34-35

Em Atos 2, vemos o Evangelho desfaire as barreiras erguidas em Babel e cumprir a promessa feita a Abraão. É somente pelo amor de Cristo que alcançamos as nações, sem desprezo ou hostilidade. O Pentecostes representa o derramamento do Espírito Santo que une os povos pela linguagem do amor, do afeto, da partilha, da paz, da bondade e do domínio próprio — frutos colocados a serviço do Reino de Deus, que é a nossa verdadeira pátria.

Concluímos lembrando onde reside nossa real identidade:

"A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo." Filipenses 3:20

Ansiamos pelo dia em que nos juntaremos à visão descrita pelo apóstolo João:

"Depois disso, olhei, e eis que diante de mim havia uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e folhas de palmeira nas mãos. Eles clamavam em alta voz: 'A salvação pertence ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro.” Apocalipse 7:9-10

 

COLUNISTA

ANDRÉ FELIPE ROCHA - Professor Universitário, Bacharel em Direito e presbítero em disponibilidade na IPB.