O desabamento de uma montanha de lixo no lixão Ouro Verde, em Padre Bernardo (GO), ocorrido em 18 de junho, provocou uma tragédia ambiental sem precedentes recentes no estado. Para Fábio Miranda, chefe da Área de Proteção Ambiental (APA) da Bacia do Rio Descoberto, vinculada ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), os danos são comparáveis — e talvez até mais graves — que os causados pelo acidente com o Césio-137, em Goiânia, em 1987.
“A gente fica até na dúvida, em questão dos danos ambientais, do que foi pior: o Césio-137 ou esse caso de Ouro Verde”, declarou o gestor em entrevista.
Segundo ele, o impacto vai além da contaminação imediata dos córregos Santa Bárbara e Rio do Sal, atingindo o lençol freático, o solo e até a vegetação da região.
“Está contaminando muito o solo e, consequentemente, o lençol freático e as raízes da vegetação”, afirmou.
A estimativa da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Semad) é de que cerca de 40 mil toneladas de resíduos tenham sido lançadas no ambiente após o colapso da estrutura, que funcionava de forma precária e sem licenciamento ambiental. Parte dos resíduos inclui lixo hospitalar. Fábio Miranda relatou que os técnicos do ICMBio chegaram a caminhar sobre seringas durante as inspeções: “Recebia qualquer tipo de produto”, disse.
Para ele, os efeitos do desastre podem perdurar por décadas. “No solo, por exemplo, há diferentes poluentes — é até difícil dizer exatamente quais são. Um deles é o mercúrio”, alertou. A Semad e o gabinete de crise estadual confirmam que a área está sob risco de novos deslizamentos, especialmente com a chegada do período chuvoso.
O aterro Ouro Verde operava amparado por uma liminar do TRF-1, mas sem autorização do Estado. Após o colapso, a empresa responsável foi multada em R$ 37,5 milhões e teve R$ 10 milhões bloqueados judicialmente para garantir a execução de medidas emergenciais. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi enviado pela Semad e aguarda assinatura da empresa.
Entre as ações já iniciadas está a transposição da água do córrego Santa Bárbara para evitar que o chorume e os resíduos cheguem a outras bacias, como a da Usina Hidrelétrica Serra da Mesa. O córrego, antes fonte de água para consumo e agricultura de moradores rurais, teve seu uso suspenso por tempo indeterminado.
Além do dano ambiental, o episódio já impacta diretamente a saúde e o sustento de dezenas de famílias do Entorno do Distrito Federal. A situação segue sendo monitorada por órgãos ambientais, Defesa Civil e Ministério Público.